terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Apenas uma vez: A política simples e vencedora do ‘no single piece of information should be entered twice’

A Estônia é sociedade mais digital do planeta e líder mundial em tecnologia.

Poderia dizer só isso e deixar vocês duvidarem e descobrirem sozinhos essa história, mas vou avançar um pouquinho...

Foi o primeiro país a declarar o acesso à Internet como um direito humano (2000) e também o primeiro permitir a votação on-line nas eleições gerais (2007). Tem um serviço de banda larga dos mais velozes do mundo e é recordista no número de startups por habitante. Tem armazenado em nuvem todos os registros médicos de seus cidadãos e todas as escolas estão conectadas desde 1998. Sua rede digital extrapola suas fronteiras geográficas: qualquer pessoa do mundo pode se habilitar para ter a cidadania digital e com isso abrir uma empresa no país (em alguns minutos...) e usar o seu sistema financeiro . Isso não é tudo (para saber mais acesse os links no final nesse texto), mas já deixaria qualquer outro país desenvolvido comendo poeira na estrada da digitalização, não é?

Essa história tem um detalhe que não pode deixar de ser dito: tudo isso aconteceu depois de 1991, após o colapso da União Soviética, bloco comunista do qual a Estônia fazia parte. Não é preciso muito esforço para imaginar como o país deveria estar defasado e carente no momento em que se viu livre das amarras impostas pela URSS. Tudo é história e está devidamente registrado. Então, como eles conseguiram essa virada em pouco mais de duas décadas?

Claro que a organização da economia foi fundamental para permitir um planejamento de crescimento e atrair investimentos e isso começou imediatamente (1992). Não é objeto de análise desse texto, mas faço questão de dizer que a Estônia é um dos países mais liberais do mundo!

A revolução digital começou em 1997, quando o país decidiu buscar soluções para a ampliação e uso de documentos digitais, mas sóe podemos hoje falar que a Estônia é uma plataforma digital completa, isso se deve a Taavi Kotka, CIO (Chief Information Officer) do país desde 2013 (foto).


Taavi Kotka, CIO da Estônia desde 2013
Conhecido como um ‘homem com uma visão de futuro’, Kotka vislumbrou a necessidade e a oportunidade de transformar a Estônia numa sociedade digital. Para enfrentar o desafio concebeu e implantou a política do ‘apenas uma vez’ (once only policy), que preconiza que nenhuma informação deverá ser registrada mais de uma vez (‘no single piece of information should be entered twice’).


A política é extremamente elegante porque em apenas uma frase feita de palavras simples, alcança tudo o que se espera de uma política de inovação para o século XXI, que deve ter a digitalização como alicerce principal. Vejamos por exemplo:

Sobre o custo da coleta dos dados: uma vez coletados, dados digitais podem participar de infinitos processos produtivos de conhecimento. É um recurso que não se desgasta com o uso. Porque não reduzir o esforço da coleta? Se uma informação já foi coletada, basta.

Open data: se apenas um coleta e todos devem usar, então... os dados devem ser compartilhados! Simples assim.

Governança dos dados: se todos vão usar os mesmos dados, eles precisam ter boa estrutura, integridade, disponibilidade, acessibilidade e um fácil gerenciamento. A identidade única e digital do cidadão da Estônia é a chave de busca para diversos dados de interesse da sociedade como dados de saúde, de educação, propriedade etc.

Política de uso de dados: esse recurso pertence a todos e para isso o país adotou uma política rigorosa de responsabilidade e exige de todos o seu reconhecimento e cumprimento.
Outras implicações e consequências benéficas devem estar associadas à only once policy. O que foi citado são apenas alguns exemplos.

Podemos dizer que Kotka colocou a Estônia nas nuvens! 

Até pouco tempo, sempre que me perguntavam que política pública seria fundamental na área de... (pode completar com o que você quiser), eu respondia sem pensar: uma política que incentive o livre compartilhamento de dados, ou simplesmente a cultura open data. Isso foi até o final do ano passado (2017). Hoje eu quero a política ‘no single piece of information should be entered twice’.


Para ler mais sobre a Estônia:

Estônia, uma democracia digital (em português) https://medium.com/app-civico/est%C3%B4nia-uma-democracia-digital-9e4ccc5279f6,





terça-feira, 8 de agosto de 2017

Abre-te, Sésamo! A inauguração do “universo paralelo da paz” no Oriente Médio

Bahrein, Chipre, Egito, Iran, Israel, Jordânia, Paquistão, Turquia e Autoridade Palestina (ANP). Começando assim, parece que estamos diante de mais um texto sobre desentendimento, intolerância e guerras. Mas não, esse texto não é sobre guerras.

Não me lembro mais como tomei conhecimento da existência do SESAME, nem que motivações e conexões mentais me fizeram seguir dezenas de hyperlinks na Internet para descobrir essa história incrível que compartilho aqui com vocês.

SESAME é um acrônimo para Synchrotron-light for Experimental Science and Applications in the Middle East. Não se assuste... não pare de ler ainda porque SESAME também é a palavra mágica que abre a caverna onde está escondido um inestimável tesouro! Um sincrotron é uma espécie acelerador de partículas, semelhante ao Grande Colisor de Hádrons do CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear). No CERN os cientistas fazem colidir partículas para estudar a origem das suas massas. Um sincrotron, simplesmente faz as partículas ‘dançarem’ para produzir uma luz de grande intensidade e alto brilho: a ‘luz sincrotron’. Essa luz é perfeita para a observação de objetos nanométricos, aqueles que possuem dimensões na escala atômica ou molecular, que não podem ser vistos nem mesmo com um microscópio (proteínas e vírus, por exemplo). Deve ser uma coisa incrível, né? Digo ‘deve ser’ porque, como muitos dos que estão lendo isso, meu arcabouço de conhecimento não é suficiente para apreender a importância do SESAME para a física quântica. Mas isso não tem a menor importância porque esse texto também não é sobre o avanço da ciência e esse não é o maior tesouro que o SESAME nos oferece.

O SESAME nasceu de uma ideia muito louca. A ideia era promover a cooperação entre árabes e israelenses para a ciência. Os loucos eram o israelense Eliezer Rabinovici e o italiano Sergio Fubini, ambos cientistas do CERN. Rabinovici, sabia da importância da cooperação para a ciência e se inquietava em ver que a falta de diálogo dos países do Oriente Médio (provocado por divergências religiosas, econômicas e políticas), reduzia a quase zero a sinergia potencial entre os cientistas da região. Fubini coordenava um grupo de cooperação científica para países do Oriente Médio. Em 1994 eles decidiram que estava na hora de tirar do papel o que eles chamavam de ‘universo paralelo da paz’: colocar inimigos históricos num mesmo laboratório, pesquisando e produzindo ciência.

Os dois se auto empossaram membros de um comitê científico que teve como primeira ação organizar um encontro de cientistas em Dahab, Egito, próximo ao Deserto do Sinai. O encontro discutiu missão e possibilidades, mas o plano de ação que faltava só surgiu em 1997, quando um grupo de cientistas alemães resolveu doar para o SESAME um acelerador antigo, oriundo da recém extinta Alemanha Oriental, que estava prestes a ser substituído por um mais moderno. Alguns membros do SESAME relutaram em aceitar alegando que um equipamento tão antigo não atrairia cientistas. Rabinovici foi decisivo mais uma vez, dizendo coisas mais ou menos assim: 'Claro que temos que aceitar! Precisamos rápido de algo concreto porque não vamos querer construir uma coalizão de Árabes e Israelenses em torno do ar!' Em 1999 o empreendimento recebeu o nome de SESAME, sugestão de um membro da Autoridade Palestina. Em 2000 o grupo decidiu instalar o equipamento na Jordânia: “Tinha que ser na Jordânia. Era o único lugar onde todos poderiam ir”, disse Rabinovici referindo-se ao fato de que era o único país com relações diplomáticas com todos os outros.

O SESAME ainda precisaria da autorização da UNESCO para construir um laboratório para aceleração de partículas, dados os riscos que experimentos dessa natureza oferecem. Imagine convencer a UNESCO de que cientistas do Bahrein, Chipre, Egito, Iran, Israel, Jordânia, Paquistão, Turquia e Autoridade Palestina (ANP) acelerariam partículas em paz... A aprovação da UNESCO veio em 2002. Seguiu-se a construção da planta, a montagem do equipamento e o primeiro teste veio em 2009.

Toda a história do SESAME (que inclui até sobreviver ao terremoto de 6.9 graus de magnitude que ocorreu no Egito no dia do encontro em Dahab) vale a pena ser lida, mas eu ficarei por aqui. Dou agora um grande salto para o dia 16 de maio de 2017, quando o laboratório foi totalmente concluído e aberto para os cientistas dos países membros. Infelizmente, uma notícia muito pouco divulgada. Mais triste ainda é que a pouca divulgação que recebeu fique ofuscada por tanta notícia da chamada agenda negativa, seja no mundo como um todo, seja no local onde vivemos e atuamos.

Esse não é um texto sobre guerras nem sobre avanço da ciência, é sobre a resiliência humana diante do negativo e da destruição. O ser humano está conectado pela necessidade e paixão de produzir conhecimento. O SESAME levou 20 anos para acontecer, mas aconteceu porque a rede do conhecimento desconhece os obstáculos impostos por outras redes. As religiões pregam dogmas incompatíveis que geram intolerância e a rede de conhecimento os ignora. As nações riscam no chão as fronteiras que dizem “daqui não passarás”, mas a rede de conhecimento as ignora. O mercado produtivo coloca as informações em cofres gerando alto custo de transação, mas a rede de conhecimento os ignora. As instituições de ensino pregam o erro como algo a ser evitado, colocando os humanos em desconfortáveis zonas de conforto, mas isso a rede de conhecimento também ignora.

O mundo hoje é muito melhor do já foi em qualquer tempo e até muito melhor do que imaginamos que seja. Isso se deve apenas à resiliência da rede de conhecimento que constrói e direciona valor para onde é necessário.

Vida longa ao SESAME que nesse texto foi apenas o pretexto para falar do conhecimento como o 'universo paralelo da paz'.

Eliezer Rabinovici e Sergio Fubini, larguem as partículas subatômicas dançando por aí e saiam pelo mundo contando essa história.



quinta-feira, 23 de março de 2017

A Internet das Coisas não está esperando por nada: não pisque o olho ou vai perder

"A Internet das Coisas só vai decolar se os consumidores puderem confiar nela."

A frase acima foi retirada de um texto da Delloite (gigante do ramo de consultoria, auditoria e assessoria para empresas), mas podemos dizer que ela é comum no pensamento de todos (ou quase todos) os players envolvidos nesse ecossistema de objetos conectados. 

Penso que essa é uma ideia equivocada. Não é que não seja importante ter um protocolo de segurança que minimize o risco do mau uso dos dados. Claro que isso é importante. Todo o restante do texto tem informações relevantes, considerações importantes e sugestões que devem ser consideradas. Mas isso não quer dizer que a IoT só vai decolar quando os consumidores confiarem que tudo isso já está implantado e funcionando direitinho.

Por três motivos:

1. IoT não está restrita a dados sobre pessoas. Muitos sensores conectam e coletam dados de plantações, criações de animais, equipamentos de logistica e de produção de produtos, condições climáticas etc. Coisas que não envolvem dados pessoais e estão alavancando a IoT. Os impactos do uso desses dados sim, serão para as pessoas, e geralmente são benefícios, o que colocará as pessoas a favor disso e não resistentes.  

2. A regulamentação sempre vem depois do fato consumado. Não tem como ser diferente, por definição. É impossível criar regras e protocolos para algo que não existe. A sociedade muda primeiro. As leis correm atrás.

3. Mesmo falando exclusivamente sobre dados pessoais, quando adotamos uma inovação, estamos buscando soluções que reduzam nossa "taxa de sofrimento" em algum aspecto de nossas vidas. Se o produto ou serviço de fato desempenha esse papel, aceitamos em troca abrir mão de alguma coisa. Isso costuma ser um ato consciente quando se trata de troca material: pagar por um produto ou serviço, por exemplo (eu disse consciente, não racional!). Mas quando não há "desembolso" material na troca, o grau de inconsciência é muito maior. Usamos o celular porque facilita nossa comunicação, o GPS, porque facilita nossa localização, o e-commerce e o Google, porque são extremamente convenientes. Ninguém pensa que está cedendo dados, e quando pensa, o que vem de mais racional à cabeça é a confiança nas instituições (o que, vamos combinar, é mais instinto do que racionalidade). Fomos treinados para isso. Se não confiamos nas instituições o medo nos paralisa. Todos nós conhecemos casos patológicos dessa natureza. 

Olhando agora para os fatos e os números, podemos confirmar a teoria: Não conhecemos muitas pessoas que recuaram do uso de um produto/serviço útil, pelo fato de estarem cedendo dados. Ao contrário, uma proporção cada vez maior da população está usando uma quantidade cada vez maior e diversificada de "coletores de dados". Também o número de objetos conectados cresce exponencialmente, ou seja, as empresas não estão esperando as regras e os protocolos... (embora certamente estejam preocupadas e trabalhando nisso).



Para polemizar um pouco mais essa questão, pensemos no seguinte: Já existem dados suficientes para provocar uma avalanche de soluções inovadoras em todos os setores produtivos, mas vamos especular em um onde o ser humano tem mais expectativas na redução das taxas de sofrimento: a saúde. Por coincidência ou não, esse é um setor onde é bastante fácil implantar sensores para IoT. Sabemos, por exemplo, que algumas pessoas já usam diariamente monitores no braço (fit bands) por modismo, curiosidade, necessidade de ser moderno e até porque enxergam mesmo algum valor neles. Os dados são coletados e os controladores desses dados estão colocando esforços para gerar mais valor com eles (disso não tenha nenhuma dúvida). Imagine se hoje sai a seguinte notícia no jornal: Cientistas descobrem a cura do câncer através de tratamento personalizado a partir do padrão do batimento cardíaco. Para isso são necessários dados diários dos últimos 10 anos do paciente Não se apegue na plausibilidade do exemplo, concentre-se na essência do argumento. O que você acha que vai acontecer imediatamente depois? Pessoas vão esperar as leis que garantam a privacidade no uso desses dados para depois comprarem suas fit bands? Empresas consultarão seus departamentos jurídicos e farão lobby com os legisladores para aprovar logo as regras para uso dos dados? Ou haverá uma corrida dos consumidores ao mercado em busca desses sensores, e das empresas visando oferecer o melhor produto para essas pessoas?

A Iot, vai se consolidar antes que o cidadão/consumidor possa confiar inteiramente nela.

Qual a implicação prática disso? Para os pioneiros, pouca diferença. O problema são os seguidores e retardatários, a grande maioria dos players, que podem ver nisso uma justificativa para adiar confortavelmente um planejamento estratégico que os coloque no paradigma digital. 

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Vamos ter que desapegar do controle editorial


O assunto da vez é a proliferação das notícias falsas nas redes sociais, seus efeitos negativos e como combatê-las. O problema é sério, cabem muitas discussões para diagnosticá-lo assim como podem existir muitas ideias para contorná-lo. No entanto, acredito que uma coisa precisa ficar de fora dessa discussão: o controle editorial das redes sociais.

Discordo de Bart Cammaerts (professor de mídia e comunicação na London School of Economics) que recentemente declarou que "Facebook e Twitter têm responsabilidades editoriais" (veja a matéria completa aqui). Não, não têm! O equívoco é comum e deriva do fato de se olhar para as redes sociais com o paradigma das mídias de massa. Redes sociais são outra dimensão de interação das pessoas com os acontecimentos e precisam de uma abordagem diferente da que existia para as mídias "de um para muitos".

Para entender melhor, vejamos um exemplo equivalente, que aconteceu há muitos séculos e para o qual já conhecemos os desdobramentos e o desfecho: Até o século XV poucas pessoas tinham acesso a textos escritos. Também poucos sabiam ler. A Bíblia, por exemplo, era lida por membros do clero que interpretavam e transmitiam a mensagem para outros. Após a invenção da prensa (em meados do século XV) e a massificação da alfabetização (meados do século XVIII), as pessoas passaram a ter contato direto com o texto escrito e a leitura e interpretação da Bíblia foi desintermediada. Deve ter sido um desespero abrir mão desse controle! Devem ter aparecido milhares de pessoas defendendo a ideia de que isso era ruim e maléfico à sociedade. O resto da história é conhecida. Não conheço uma só pessoa que defenda o analfabetismo ou a restrição de acesso a textos escritos, como forma de dirigir a sociedade para um destino melhor.

Estamos passando por um desafio semelhante. A internet favorece o descontrole da produção e distribuição da notícia e isso eventualmente pode gerar os efeitos que estamos vendo agora, mas vamos ter que aprender a desapegar do controle editorial. Qualquer ação nesse sentido é uma ameaça à liberdade de expressão que seria algo muito mais maléfico para a sociedade do que a publicação de informações falsas. Acreditamos e compartilhamos notícias falsas pelas redes sociais porque durante séculos fomos acostumados a consumir, sem nenhum distanciamento crítico, toda informação que nos chegava sobre os acontecimentos no mundo. Precisamos de um tempo para aprender a nos relacionar com as notícias que passaram a chegar por outras vias. Precisamos desenvolver competências e habilidades para identificar e combater notícias falsas e isso não pode ser feito de outra maneira que não seja usando a mesma topologia da rede que as criam e distribuem (descentralização, autonomia e autoridade nas pontas, redistribuição de contra-argumento). Por que deixaremos o inimigo com as melhores armas e nos contentaremos com armas menos eficazes? Seria uma guerra perdida.

A médio prazo, a sociedade vai ganhar com isso. Controle editorial de redes sociais digitais é um erro, uma falsa proteção aos valores liberais e democráticos, uma solução que só faz sentido quando se desconhece completamente a essência da internet e o papel das suas ferramentas.

sábado, 1 de outubro de 2016

O futuro é muito melhor do que você pensa

Como alavancar a inovação? Se você não garante ao inventor que no futuro ele vai recuperar tudo o que ele investiu na invenção, ele para de inventar. Quem em sã consciência investiria mundos de dinheiro para desenvolver uma droga para curar uma doença grave, por exemplo, se não tiver certeza de que o esforço será recompensado? Com essa visão surgiram as chamadas leis de patentes. A mais antiga lei de patentes surgiu no século XV na Itália. Tudo fez muito sentido nos 500 anos seguintes.

O primeiro efeito da lei foi transformar o caminho da epifania até o registro da patente em um processo de absoluto sigilo. Imagine se, depois de tanto esforço, alguém pega a minha ideia e a registra antes que eu faça? Ter a ideia roubada era a única consequência que se podia enxergar para um possível vazamento antes do devido registro. Não passava pela cabeça de nenhum inventor que a exposição do seu invento a outras pessoas podia agregar valor à ideia. Qual era a chance do sujeito que estava do meu lado ter informação, conhecimento, experiência, competência, interesse e tempo para contribuir com minha ideia genial? Zero. Quase zero. O segredo fazia sentido. Uma vez registrada a patente o inventor ficava traquilo por muitos anos para recuperar o investimento. Era uma montanha de dinheiro e a exclusividade por 20 anos fazia sentido.

Eis que surge a internet. Disponível a todos já há 25 anos, devidamente consolidada, acessível a quase metade da população mundial, 24 horas por dia, na palma da nossa mão, escancara uma nova visão a partir da qual não se admite mais determinados comportamentos. Reserva de patentes é um deles.

Recentemente ouvi um professor de economia afirmar que a quebra das patentes das drogas de combate a AIDS pode ter trazido benefícios de curto prazo à sociedade, mas comprometeu o bem-estar da próxima geração. Esse é um dilema bastante estudado em economia: agora ou depois? Consumo ou previdência? Investimento ou poupança?

O professor reconhecia o valor do maior acesso aos remédios no presente, mas queria que os alunos vissem que isso tinha um custo no futuro: a empresa que perdeu a patente vai parar de investir provocando uma desaceleração na inovação nessa área. Segundo ele, em 20 anos teríamos melhores drogas contra a AIDS ou até mesmo a cura da doença, mas isso agora será menos provável já que, sem garantia de retorno, as empresas param de investir. Em defesa do professor, o objetivo da aula não era julgar a decisão, mas mostrar o quanto é difícil escolher entre usufruir agora e adiar a recompensa, mas o que ele não está vendoQue a internet mudou tudo. Algumas pessoas dizem que ela é uma janela para o mundo. Outras preferem a metáfora das portas que nos oferecem novas saída. Eu gosto de dizer que a internet derrubou as paredes. Quem precisa de janelas e portas se não existem paredes?

A geração futura terá drogas muito melhores ou até a cura para muitas doenças que hoje são incuráveis, justamente porque houve a quebra das patentes. Sem paredes, mais pessoas poderão contribuir com soluções. Sem paredes, os erros são apontados mais cedo e correções de rumo são feitas antes que seja tarde demais. É importante dizer que o sem-paredes da internet não é meia dúzia de vizinhos espiando, com poucas chances de contribuir e muitas chances de roubar o que está "pronto". O sem-paredes da internet são 7 bilhões de pessoas, com 7 bilhões de diferentes visões, 7 bilhões de micro contribuições, que agem por 7 bilhões de diferentes motivos. (a famosa sociedade dos 7 bilhões!). Já imaginou o quanto exponencial esse fenômeno pode ser?

Enquanto você faz as contas eu conto uma história: nos últimos anos a indústria farmacêutica tem sido pressionada a abrir os dados dos testes de drogas. Sim, abrir os dados. Compartilhar livremente os dados preliminares encontrados nos testes de novas drogas. De onde vem a pressão? Do governo, que tem o complexo problema da saúde pública para resolver? Da esquerda, que detesta o fato de grandes empresas terem grandes lucros? Dos defensores dos direitos humanos que acham desumano não ampliar o acesso a remédios importantes? Da sociedade que teme sofrer as consequências do gargalo da inovação e produção fechada? Bem, todos eles certamente exercem parte da pressão sem causar nenhuma estranheza a quem ainda vê o mundo com o paradigma pré internet. 

No entanto, a pressão que realmente fará diferença no compartilhamento de dados de clinical trials afronta o senso comum desse paradigma: a pressão vem dos acionistas da indústria farmacêutica... Como assim? Acionista não quer lucro? Sim. O lucro só não é garantido se a patente estiver garantida? Pois é... Não é mais bem assim... Antes de investir os acionistas agora querem ter a certeza de que a ideia não será refutada assim que sair à luz do dia e ser exposta aos 7 bilhões de olhares. 

Para entender melhor essa história, sugiro a leitura de uma pequena matéria intitulada “Clinical trials: Failure to publish the results of all clinical trials is skewing medical science”, publicada na revista The Economist em julho de 2015. (tradução livre: Testes clínicos: a não publicação dos resultados de todos os ensaios clínicos está distorcendo a ciência médica). Para quem não quiser ler, guarde apenas essa mensagem: compartilhar dados e inovar com processos abertos é hoje a única maneira de garantir sucesso e retorno aos investimentos. Qualquer coisa diferente disso é falta de visão que o século XXI, empoderado pela internet, não perdoará.

Fez as contas? A internet pode exponencializar realizações porque permite micro ajustes em tempo real, feito por milhares ou milhões de pessoas ao mesmo tempo. Não há a necessidade de uma única pessoa/empresa se debruçar exaustivamente sobre um problema e encontrar sozinha a melhor solução. Assim demora mais, comete-se mais erros, perde-se mais oportunidades e tudo isso torna o processo extremamente oneroso. Para que a internet possa transformar essa possibilidade em realidade os dados precisam estar abertos e os acordos sociais precisam contemplar esse novo modelo de produção de conhecimento. Lei de patentes não garantem mais inovação, muito menos retorno sobre elas. Precisamos de um novo acordo social.

Então se você me perguntar: o que o governo deve fazer para incentivar a inovação? Simplesmente ampliar o acesso e a qualidade da internet. Só. Uma pequena (muito pequena) parte da sociedade já entendeu o que é preciso fazer. Mas quando se trata de um fenômeno exponencial, 1% de conversão é 99% de caminho andado. (Sobre isso leia Ray Kurzwel).

Talvez esse seja um aspecto da abundância que Peter Diamandis vem falando há anos, para quem quiser ouvir: o futuro é muito melhor do que você pensa!


quarta-feira, 11 de maio de 2016

Crise econômica ou de paradigma?

Crise econômica ou de paradigma?


As grades são para trazer proteção, mas também trazem uma dúvida:
será que você não está numa prisão?
(adaptado de Marcelo Yuka)

Esta semana, a empresa de Telecomunicações Oi anunciou a demissão de 2.000 funcionários. Em 2015 já haviam sido demitidos outros 1.000. Segundo divulgado, a dívida bruta da empresa é de R$ 54 bilhões.

O número de demissões ainda não é oficial, mas a empresa declarou em nota que "com o intuito de manter níveis de rentabilidade e produtividade para fazer frente ao cenário macroeconômico atual, a Oi está realizando uma readequação de sua estrutura administrativa".

Embora cite apenas o quadro econômico atual do país, é certo que a empresa já percebeu também as dificuldades inerentes à sua atividade. Em 2015, a nota explicativa para as demissões dizia que a decisão considerava o cenário macroeconômico do país e os “desafios do próprio setor de telecomunicações”.

O setor de telecomunicações, assim como todos os outros, está sofrendo os impactos de duas crises: a econômica e a de mudança de paradigma produtivo. Isso, no entanto, não quer dizer que elas já tenham reconhecido e estejam enfrentando as duas.

O paradigma produtivo mudou quando mais da metade do mundo, em termos de população, e muito mais que isso em termos de produção econômica, adotou a Internet como plataforma de processos e a www como principal (quase único) protocolo de conexão nessa plataforma.

Isto, parece que as empresas tradicionais ainda não entenderam. Todas as ações de sobrevivência vistas nos setores mais ameaçados estão associadas a problemas econômicos e financeiros, que são reais, mas que, mesmo sanados, não salvarão a empresa. Demissões, cortes de custos, ajustes de preços, negociação de tarifas e impostos, tudo isso fica situado na esfera do paradigma produtivo anterior, se não vem associado à percepção de que a Internet e o protocolo www mudaram radicalmente a natureza e os valores dos produtos e serviços, os processos, a governança, a precificação, a percepção de risco, enfim, os modelos de negócio.

O WhatsApp ameaça a Oi assim como o Uber ameaça os taxis. O AirBnb ameaça a hotelaria assim como o iTunes ameaçou a indústria fonográfica. Isso para não falar das possibilidades do blockchain ameaçando todos os produtos e serviços que funcionam basicamente a partir da confiança como os do setor bancário, o sistema cartorial, etc.

A situação da Oi é apenas um exemplo de algo que está acontecendo em diversas empresas em diversos setores. As dificuldades são facilmente percebidas. Com um pouco de esforço se pode fazer até um bom diagnóstico do problema, mas a solução não é nada fácil. Uma empresa pode até reconhecer a mudança de paradigma e gerenciar corretamente seus ativos e stakeholders internos, mas ainda faz parte de um sistema complexo que atua e atuará por muito tempo no paradigma produtivo pré-internet, onde regulação e fiscalização acontecem de modo altamente centralizado, gerando uma falsa sensação de segurança. A ironia é que essa regulação e fiscalização, que pretensamente protege os negócios, não impede o surgimento de negócios disruptivos. Tomando emprestada a poesia de Marcelo Yuka, as grades são para trazer proteção, mas também trazem uma dúvida: será que você não está numa prisão? Negócios em rede e desintermediados não precisam nem são afetados pelas regras do paradigma anterior. Nadam de braçada em um oceano azul, onde as empresas tradicionais não se atrevem.

Estamos lutando contra problemas financeiros causados pela crise econômica. Está em breve passará, mas os problemas financeiros continuarão se não enfrentarmos a outra crise.

Migrar empresas do século XX para o século XXI é extremamente difícil. Não existem certezas sobre os resultados dessas empreitadas, mas o certo é que, lutar contra a disrupção causada pelo mundo digital definitivamente não é uma alternativa. Cuidado: quando um novo paradigma liberta, o anterior aprisiona.



quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Mind the gap


MIND THE GAP

Quem já andou no metrô de Londres sabe que mind the gap é uma recomendação quase obsessiva da TFL (Transport for London, empresa que faz a gestão da mobilidade da cidade). A expressão que significa “cuidado com o vão” alerta para o risco do passageiro de introduzir o pé no vão que existe entre a plataforma e o vagão do trem. O que está implícito na mensagem é que o gap existe e que o risco é grande: se você não sabe que ele está lá, ou negligencia sua existência, vai acabar metendo o pé naquele vazio e as consequências podem ser desde um simples contratempo, até um transtorno maior com perdas inestimáveis ou irreversíveis. 

Opa! Tá aí uma boa metáfora para quem quer embarcar na era do big data.

Vamos por partes. Primeiro a plataforma. Depois o trem. Finalmente o gap

O QUE É BIG DATA?
Big Data é a maior plataforma de geração de conhecimento e inovação do século XXI. Dados digitais são a matéria prima para informações sobre as pessoas e sobre como as pessoas se relacionam entre si, com a natureza e com os objetos que estão à sua volta.
QUAL O VALOR PRÁTICO DISSO?
Esses dados nos ajudam a ver, caracterizar e compreender coisas que antes nem sabíamos que existiam. Também nos ajudam a descobrir causas e consequências de determinados problemas. Possibilitam ainda prever determinados acontecimentos a partir de padrões ou correlações entre fenômenos. O impacto de tudo isso é um empoderamento da nossa capacidade de fazer melhores escolhas. Onde quer que haja um ser humano tomando uma decisão, desde a mais simples até a mais complexa, lá estarão os dados digitais facilitando esse processo. Um bom processo de tomada de decisão é o trem onde todos querem embarcar.
O QUE NOS IMPEDE DE IR MAIS ADIANTE?
O gap. O vão. O vazio.

A visão que se tem sobre qualquer coisa pode ser uma barreira ou uma alavanca para nossos objetivos. A maioria das pessoas, especialistas ou novatos no tema, têm a seguinte visão sobre big data:
É assunto para a tecnologia da informação; é restrito a quem possui como ativo grande quantidade de dados; exige um alto investimento; é algo que ameaça a privacidade das pessoas.
Com essa visão só nos resta esperar um ambiente restritivo ao uso de dados, onde cabe um papel ativo aos afortunados, passivo aos não favorecidos e reativo às vítimas que tentam proteger suas informações pessoais.
MIND THE GAP
Big Data é assunto para de tomador de decisão. Qualquer pessoa que precise fazer escolhas deve se interessar pelo tema, porque dados digitais ajudam a reduzir o erro nas escolhas e, numa época de grande propósitos e recursos limitados, a tolerância por erros será cada vez menor.
Não queremos errar, por exemplo, quando procuramos o melhor preço para o produto que queremos comprar, escolhemos o melhor trajeto para um deslocamento ou o melhor tratamento para uma doença. As empresas também não querem errar quando configuram um produto ou serviço, ou quando se comunicam com seu publico alvo. Gestores públicos têm cada vez menos margem de manobra para lidar com o caos urbano e os problemas para a saúde e segurança públicas.
Essa visão de que big data está relacionado com ação e sucesso, muda radicalmente o nosso posicionamento em relação ao assunto. Primeiro, porque transforma todos em atores e beneficiários do ambiente digital. Segundo, porque transforma dados digitais em ativo pelo seu uso e não pela sua posse.
A partir daí, criaremos um ambiente para trabalhar dados digitais como algo que diz respeito ao conhecimento e não apenas à tecnologia. Isso tem grandes implicações nas estratégias que estabeleceremos nas empresas e nos órgãos públicos, nos novos modelos de negócio e na regulamentação do ambiente digital.
Certamente os sensores, a comunicação móvel, a analítica digital e a computação em nuvem são os elementos que constituem o fenômeno big data. No entanto, nenhum valor será tirado daí se não compreendermos e soubermos utilizar bem outros conceitos que ultrapassam a fronteira tecnológica como:  complexidade, dinâmica social, engenharia da sociedade, smart cities, open data, colaboração, crowdsourcing, idlesourcing, gamificação, pensamento exponencial, design thinking, data driven decision, rastros digitais, ética, ativos e outputs intangíveis, entre tantos outros.

O gap existe e está lá ameaçando qualquer um que venha desavisado e ansioso para embarcar no trem. Enfiar o pé no gap significa fazer altos investimentos em tecnologia para analítica, sem ter ajustado a estratégia, processos e competências para uma cultura data driven. Mind the gap